Ivete Sangalo é tão onipresente na mídia que o anúncio do lançamento de seu novo CD soou como uma ordem para mim: COMPRE. E olha que eu nunca gostei de axé. Não me causa pereba feito a música sertaneja, mas acho que é som de hétero que precisa estar melado de suor e cerveja para beijar umas mina desconhecida na boca. Aliás, Ivete é primeira que diz que o produto que vende não é música, é beijo na boca. E assim passamos muitos anos, ela bombando em especiais no Multishow e eu olhando para o outro lado.
Até que este ano Ivetão se lançou como atriz, e me surpreendeu. Esteve bem num episódio de "As Brasileiras" e ainda melhor como a Maria Machadão de "Gabriela". Tem carisma, segurança, simpatia. Também canta muitíssimo bem e é uma entertainer consumada. Como diz um leitor amigo, sofre de excesso de autoestima - e por que não sofreria? Autoestima e arrogância não são a mesma coisa; na verdade, são opostas. Arrogância e insegurança é que são a mesma face da mesma moeda. Tergiverso; voltemos a Ivetão. Finalmente sucumbi à rainha inconteste da música brasileira e adquiri um disco seu, o luxuoso "Real Fantasia".
A direção de arte é do Giovanni Bianco, que também já fez capas para Madonna e Marisa Monte. E a produção musical é estonteante. Quase todas as músicas têm potencial para se tornarem sucessos no rádio e no circuito Barra-Ondina. O escopo vai além da Bahia: tem muitos ingredientes latinos e até mesmo disco music dos anos 70, na faixa "Essa Distância" (não por acaso, a minha favorita).
As letras estão longe do quilate de um Chico ou Caetano, mesmo quando a pegada não é abertamente carnavalesca, mas também nunca resvalam para o chulo ou o boboca. Ouvir o disco de enfiada chega a ser exaustivo, de tanta animação. Ivete Sangalo acaba de ganhar um novo súdito, e o próximo verão brasileiro já tem sua trilha sonora.


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